Assim como a Amazônia é um lugar especial no Brasil, que os estrangeiros gostam de visitar, Guilin (桂林) é especial na China, um lugar diferente que não consigo explicar sem mostrar uma foto. Para você ter uma idéia, a paisagem retratada na nota de 20 yuans (moeda chinesa) é Guilin. Já dá para ter uma idéia de como o lugar é incrível, né?

Nesta viagem, eu não estava sozinho e foi a primeira vez que viajei com uma chinesa. Recomendo muito viajar com pessoas do país em que você está, é uma experiência completamente diferente e muito enriquecedora. Ainda mais quando você não tem fluência no idioma.

Primeiro Dia – Viajem para Guilin

Nosso ponto de partida foi a cidade natal da Wanting (婉婷), a capital da província de Cantão, GuangZhou (广州). De lá, tomamos um trem bala para a estação de YangShuo (阳朔), a principal cidade turística da região. Mas, como vocês me conhecem, não gosto de grandes centros urbanos e uma super estrutura para o turismo. Então, escolhemos nos hospedar em um micro vilarejo às margens do Rio Li, seu nome é XingPing (兴坪).

Logo depois de chegar na estação, fomos perguntar para os seguranças como ir para o vilarejo. Por sorte eu estava com a Wanting, pois eles nos disseram em chinês: “Corram comprar as passagens”. Já era tarde e o último ônibus estava para sair. No final deu tudo certo e nós éramos os últimos e únicos 2 passageiros.

Durante a viagem eu fui olhando pela janela, mas já estava noite e a única coisa que eu via eram as luzes dos pequenos vilarejos da região montanhosa. Mas eu não liguei muito, pois a única coisa que eu queria era jantar, estava morrendo de fome.

Chegando em XingPing, nem eu nem ela sabíamos como chegar no hostel. Havíamos feito a reserva pelo Booking e o endereço no aplicativo estava em inglês. Agora, imagina se algum aplicativo de mapa ía achar uma rua em inglês, em um vilarejo chinês que não demoramos nem 10 minutos para atravessar de ponta a ponta (lembrando que lá, o Google não funciona). 

O jeito foi sair perguntando. Na verdade, ela perguntar. Eu fui caçando restaurantes e estrangeiros. Este último, era um hábito meu na China, pois quando você sai dos grandes centros (Beijing, ShangHai, GuangZhou) é muito raro encontrar gringos, mas é muito fácil identificar. E quando eu não encontrava, eu me sentia especial, porque só tinha eu de estranho no lugar. 

Vocês podem me achar meio doido, mas é muito legal visitar uma região chinesa que não tem estrangeiros. Nestas cidades é muito comum os locais virem conversar com você, mas são poucos os que sabem falar inglês. E aí, eles usam a criatividade: falam mandarim devagar, arranham no inglês, mostram fotos, fazem mímica ou a conversa se torna uma conversa de aplicativo de tradução (sim, esta última é muito comum na China. É como conversar pelo Google Tradutor).

Depois de alguns minutos caminhando, chegamos ao final da cidade e lá estava nosso hostel, quase às margem do Rio. Logo que entramos, deixamos nossas coisas no quarto e subimos para o terraço para ver se as fotos do Booking eram reais e ali teria uma área de lazer com vista privilegiada do Rio Li. Chegando lá, não deu para ver nada, estava de noite (Óbvio, né Felipe!!). Decepcionados, descemos as escadas e fomos jantar.

A região tem 2 comidas muito tradicionais o Guilin Mifen (桂林米粉) e um peixe com cerveja que eu esqueci como escreve, mas se não me engano é Guilin Pijiu Yu (桂林啤酒鱼) que em tradução literal é peixe com cerveja de Guilin. 

Guilin - MiFen

Como eu não sou muito fã de cerveja, pedi o primeiro. Esperava um pratão de arroz com algumas especiarias locais, pois quando a Wanting me falou o nome do prato “Mifen”, eu entendi “Mifan”, que significa arroz. Mas, para a minha surpresa veio um macarrão, eu não entendi nada. Só sei que estava uma delícia e comi este prato quase todos os dias. Era barato e gostoso.

Acabando o jantar voltamos para o hostel, como não tinha ninguém na área comum para entrosar, fomos dormir e nos preparar para o dia seguinte.

Segundo Dia – Motinha em Guilin

Antes de fazer essa viagem, tinha planejado tudo que queria fazer, masssss … se vocês já leram meus outros relatos, devem imaginar que nada do que planejei aconteceu. Eu queria fazer uma travessia, andar de XingPing até outro vilarejo acompanhando o Rio Li, iria tomar 2 dias e acamparíamos às margens do rio. Porém, a minha companheira conversou com o pessoal do hostel e eles disseram que era mais legal a gente alugar uma moto elétrica e rodar pelas estradas da região. Então mudamos os planos.

Antes de alugar a motinha, fizemos uma trilha ao lado do hostel que nos levou a um mirante no topo de uma montanha, ao lado do Rio Li. A foto abaixo é a visão que tivemos de lá de cima, pena que estava nublado, mas ainda assim foi lindo e demos a sorte que o tempo foi abrindo ao longo do dia. 

Guilin - Mirante

Depois fomos passear na pequena vila, não tinha muita coisa, mas ela era muito bonita, com alguns decks nas margens do rio, um pequeno museu contando a história daquela região e casas em arquitetura chinesa antiga. No meio da caminhada, paramos para almoçar Guilin Mifen e depois alugar a moto.

Dica número 1 para quem for visitar a China: tudo que você for comprar, alugar com pequenos comerciantes, tem que negociar!! Tinha coisas que o preço inicial era 10x maior do que o valor final. 

A mulher com quem alugamos a moto, foi super gente boa. Deu várias dicas de lugares para passear e a mais valiosa delas, até onde podíamos ir antes da bateria acabar. Que era ir até YangShuo e voltar, se a gente fosse além disto, corríamos o risco de ficar sem bateria. Bom … agora vocês imaginem o que aconteceu.

Pegamos a motinha e fomos para a estrada. Eu estava super empolgado para dirigir. As motos elétricas são uma praga na China, elas podem andar em tudo quanto é lugar, inclusive na calçada como bicicletas. Era um inferno em Beijing, mas agora era minha vez de dirigir até pelas paredes e matar minha vontade, pois na capital chinesa eu era proibido de pilotar essas motos.

A estrada era linda, nem precisava chegar em um dos lugares famosos para ficar de queixo caído, olhando o horizonte. Várias vezes paramos no acostamento, em lugares desertos para tirar fotos e curtir a paisagem. A liberdade de escolher para onde ir, onde parar, quando parar, era uma das maiores vantagens de ter alugado a moto. Segue uma sequência de fotos que tiramos:

Guilin - Estrada
Guilin - Rio

Depois de algumas horas na estrada chegamos em YangShuo, onde fiquei com um pouco de medo de dirigir. As ruas eram cheias de gente e carros, mas passamos pouco tempo ali, pois nosso destino era a estrada com o mirante para a Moon Hill, uma grande rocha furada no topo da montanha.

Guilin - MoonHill

A estrada era linda, os pontos em que ficamos mais tempo foram nas pontes. Onde podíamos ver as águas esverdeadas do Rio Li abaixo de nós, as pequenas vilas chinesas ao seu redor e o incrível horizonte montanhoso de Guilin. Seguimos nossa viagem até o final da estrada, marcado por um daqueles portais orientais bem chiques.

Guilin - Rio 3

Chegamos ao Portal mais ou menos 5 horas da tarde e decidimos que era hora de começar a voltar, pois o sol iria começar a se pôr logo. Então, demos meia volta e tomamos o caminho para YangShuo. Pra variar, eu já estava com fome e ansioso para conhecer a famosa XiJie (西街 – Rua Oeste), onde acontecia a vida noturna da região.

Guilin - Portal

Porém, contudo, todavia …. Alguns quilômetros do Portal o motor começou a falhar, olhei a bateria e ainda estáva na metade. Não estava entendendo o que estava acontecendo e fiquei com receio de ter quebrado alguma coisa. Algumas centenas de metros depois, a bateria foi para um pauzinho e por fim, acabou. Olhamos um para a cara do outro e falamos F#@!, já estava anoitecendo e eram mais de 40 km até XingPing. O que fazer?

A opção que nos sobrou foi buscar algum lugar para recarregar a bateria, por sorte a estrada era turística e tinha alguns restaurantes e hotéis nas laterais. Então empurramos a moto até um estabelecimento e ficamos lá sentados esperando, porém essas baterias demoram uma noite toda para carregar 100% e nós não tínhamos todo esse tempo. 

Nesse meio tempo, a Wanting entrou em contato com a pessoa de quem alugamos a moto e explicou a situação. Não sei o que elas conversaram, mas aparentemente o indicador da bateria era falso e fica eternamente no 100% até quando a bateria está acabando e ele subitamente vai para 0%. Foi ótimo saber isso naquela hora. Mas não tinha o que fazer.

Decidimos ficar uns 30 minutos no mercadinho, esperando a bateria recarregar o suficiente para chegarmos em YangShuo. Alí iríamos jantar e aproveitar este tempo para deixar a moto ligada na tomada. Pelo menos esta parte do planejamento deu certo, chegamos na XiJie e encontramos um lugar para deixar a moto carregando. 

Quando chegamos, todos os problemas desapareceram e ficamos impressionados com a beleza daquela rua (era mais uma quadra do que rua), cheia de bares, casas noturnas, restaurantes, um lago em seu centro, tudo isso em arquitetura chinesa tradicional e muitas luzes. A rua era realmente incrível e muito badalada, cheia de gente por todos os lados e com cara de ser extremamente cara. Então fomos comprar um sorvete para enganar o estômago e aproveitamos para perguntar um restaurante local, tradicional e barato.

Guilin - XiJie

As duas chinesas que nos atenderam, apontaram uma ruazinha pouco movimentada ao lado da sorveteria e disseram que lá nós encontraríamos o que procurávamos.

Chegando no restaurante, um senhor veio nos atender e perguntou o que queríamos, eu já logo falei que não queria nada apimentado (usando mandarim). Ao ouvir minha resposta, a expressão do chinês mudou e ele começou a apresentar as comidas muito mais empolgado, recomendando vários pratos e apontando as fotos na parede.

Nos restaurantes chineses é muito comum ter um cardápio com fotos na parede. Isso me ajudava muito, pois até hoje não sei direito o nome de ingredientes e sabores. Só o apimentado estava na ponta da língua, por que todo restaurante que eu ía, eu falava “BuLa” (不辣), que significa sem pimenta.

O jantar estava delicioso, mas a melhor parte foi aproveitar para conversar com o chinês que nos atendeu. Meu mandarim é igual ao de uma criança de 5 a 6 anos, mas ele se esforçou para conversar comigo, falando devagar, repetindo a mesma frase várias vezes e tentando explicar o que eu não entendia. Esta é uma das coisas que mais gosto neste povo, eles realmente se esforçam para conversar com a gente, principalmente os mais velhos do interior. 

A conversa foi boa, mas eram quase 8h da noite e já estávamos mais do que atrasados para devolver a moto para a proprietária. Cruzamos os dedos e fomos buscá-la na expectativa de ter bastante bateria. Para nossa tristeza, não tinham nem 4 dos 5 pauzinhos no painel, mas não tinha o que fazer, tínhamos que voltar e fomos para a estrada. 

Na expectativa de economizarmos o máximo de bateria, fomos com a luz do farol desligada, nos guiando pela lanterna do celular e sem forçar muito o motor. Mas, todo o esforço e risco foram em vão, num piscar de olhos o indicador só tinha um pauzinho e ainda restavam mais de 12 km até XingPing. 

Novamente, tivemos de procurar um lugar para estacionar e pedir uma tomada emprestada, porém, desta vez estávamos na estrada, não era nenhum ponto turístico. Tudo o que tinha em volta eram casas de fazendeiros, nada de restaurantes ou hotéis.

Nessas horas tem que ser cara de pau! A Wanting queria continuar na estrada e torcer para aparecer um ponto comercial, mas eu estava com muito medo e falei para a gente parar na primeira casa com luz acesa. Ela concordou e encostamos na primeira oportunidade. Sorte que era China e não Brasil, vai que rolava um assalto ali …

E agora vocês não vão acreditar! Eu estava no interior da China, na casa de um fazendeiro, no meio da estrada e quando eu falo que sou brasileiro, o cara me vira e diz que adora futebol e começa a puxar papo sobre o Brasil … Dá pra acreditar em uma coisa dessas? Porém, a conversa não foi nada fácil, o mandarim dele era muito difícil de entender, mas graças a Wanting fazendo papel de intérprete, conseguimos nos comunicar.

Foi muito massa trocar uma idéia com ele, falamos sobre o Brasil, ele contou várias curiosidades sobre Guilin e China, lugares que deveríamos conhecer e também sobre a cultura. Ficamos ali quase 2h conversando e torcendo pra mardita bateria ser suficiente. 

Nesse meio tempo, recebemos várias ligações da proprietária desesperada, perguntando onde estávamos e quando íamos voltar. Acho que ela estava preocupada se a gente ia roubar o veículo. Eu fico imaginando o que eu ía fazer se eu estivesse sozinho, nessa enrascada com meu mandarim de criança, em uma fazenda no meio do nada e uma mulher me xingando no celular achando que roubei a motinha dela. 

Depois de várias chamadas, ela decidiu pedir nossa localização e disse que seu marido viria nos encontrar. Ficamos muito felizes e aliviados quando ele chegou e nos deu sua moto, mas também preocupados em como ele ía fazer para voltar. No fim, não perguntamos nada e só voltamos para o hostel, ele devia saber o que estava fazendo.

Quando chegamos para devolver a moto, estava esperando uma bronca da mulher, mas ela foi super gente boa e disse que a moto realmente tinha problemas e perguntou se aproveitamos o passeio. Acho que ela estava aliviada em ter seu veículo de volta.

Chegamos ao hostel quase 11h da noite e só queríamos nossa cama. 

Terceiro dia

Após a aventura do dia anterior, a única coisa que a gente queria era tirar o dia seguinte para relaxar e aproveitar para conhecer os arredores de XingPing. Eu adoro lagos, rios e qualquer coisa que tem água em movimento. Então apenas seguimos caminhando pelas margens do Rio Li até não dar mais ou ficar tarde.

Na China, muitos rios e lagos têm uma estrada/ciclovia que margeia as águas. Eu acho isso incrível e o Brasil poderia ter isso também, é um ambiente muito gostoso de caminhar.

Neste dia andamos por horas e horas, com longas paradas só para observar a água do rio, os pequenos barcos levando turistas de uma lado para o outro e os paredões montanhosos nas margens. Foi um dia bem calmo, sem aventuras e cheio de fotos de paisagens incríveis. Foi neste dia, por pura coincidência que encontramos o cenários pintando na nota de 20 yuans (Pena que o rio estava com pouca água)

Como o nível da água estava baixo, conseguimos acessar por uma “passarela improvisada”, uma pequena ilha onde tiramos fotos incríveis como esta abaixo. 

Guilin - Ilha

Andamos até a estrada se transformar em uma pequena trilha no meio do bambuzal. Caminhamos mais um pouco e quando olhamos o relógio, já era um pouco tarde e decidimos que era hora de começar a voltar. Foi durante a volta que começamos a pensar em nosso próximo destino. Por sorte havia uma região em comum que nós dois queríamos muito visitar, a província de Yunnan. 

Yunnan é uma das regiões mais ao sul da China, vizinha do famoso Tibet. Só com isso acho que vocês podem deduzir qual a paisagem da região. Montanhas! Muitas Montanhas! 

Enquanto caminhávamos, fomos olhando as passagens de trem para KunMing (昆明 – capital de Yunnan) e praticamente todas as passagens baratas estavam esgotadas. Neste momento comecei a ficar preocupado, pois meu período de férias da universidade estava acabando e queria muito conhecer outros lugares. Foi no meio desse desespero que compramos 2 passagens para viajar 14 horas em pé (sim, em pé. Na China existem 3 formas de viajar de trem: cama, assento ou em pé) com partida de Guilin no dia seguinte. 

Pronto, a correria começou de novo. Já eram quase 16h, estávamos no meio da trilha e tínhamos que ir para Guilin ainda naquele dia. Pois nosso trem partiria na próxima manhã. 

Fomos direto para o hostel, chegando lá perguntamos para o chinês como ir para Guilin, ele disse que já era tarde e não tinha mais ônibus para a cidade, apenas um último trem bala saindo de YangShuo. Tentamos fazer a reserva da passagem pelo nosso celular, mas … para nosso azar estava dando algum erro com meu passaporte e não conseguimos. O único jeito era ir até a estação comprar no guichê.

A partir daí foi problema atrás de problema, o último ônibus de XingPing para a estação de trem já havia partido e os taxistas queriam uma fortuna para nos levar. Então apelamos para a última opção, alugar uma motinha! Desta vez, a Wanting fez uma super negociação, prometeu que devolveríamos a motinha em menos de 2h e se fizéssemos isso pagaríamos uma pechincha.

Agora vocês devem ter ficado confusos e minhas memórias também estão. Só lembro que fomos até a estação (sem nossas malas), compramos a passagem (ufa, deu certo), voltamos para o vilarejo, jantamos, pegamos nossas malas e chamamos um Didi (Uber chinês) para nos levar. No final deu tudo certo e naquela noite dormimos no hotel de melhor custo benefício da minha vida. Se liguem no vídeo abaixo.

Em um outro post eu conto a minha história na província de Yunnan e o que aconteceu que de um dia para o outro estava eu sentado em um avião voltando para o Brasil.

Se vocês curtiu o post e planeja ir para a China, pode entrar em contato comigo que eu posso te dar várias dicas e ajudar a planejar sua viagem.

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