Introdução

Esta, foi a primeira viagem que organizei na minha vida. E como toda primeira viagem, eu fiz um roteiro, planejei o que iria fazer em cada dia, onde iria dormir, comer e tudo mais. Mas, se você já viajou por conta própria sem agência, sabe o que aconteceu. Óbvio, que a única coisa do roteiro que deu certo foi chegar na cidade do primeiro dia. 

Tudo começou com dias pesquisando, passei por lugares como Serra da Canastra, Capitólio, Serra da Bocaina, …. dentre outros, mas nenhum deles me chamou tanto a atenção quanto esta foto do Cachoeirão no Vale do Pati. Foi aí, que decidi que este seria o meu destino, sem nem imaginar o quanto teria de caminhar para chegar lá (Spoiler: foram mais de 50 km andando sob o sol da Bahia).

Vale do Pati - Cachoeirão

A Chapada Diamantina se localiza no coração a Bahia, a mais de 400 km de  Salvador. Ela é repleta de cachoeiras, rios de cor avermelhada, cavernas e os incríveis paredões que caracterizam as chapadas. Ao seu redor, encontramos alguns vilarejos que servem como base de apoio para os viajantes, Andaraí, Mucugê, Guiné, Palmeiras e o maior deles, com aeroporto, Lençóis.

Dia 1 – Viagem para a Chapada Diamantina

Minha viagem teve início na rodoviária de São Paulo, onde me encontrei com o Marcos e como viajantes sem muito dinheiro, nosso meio de transporte foi o bom e velho busão. Uma viagem que durou mais de 30h, com destino a Palmeira-BA. De onde todos os dias, às 6h da manhã sai uma van com destino ao vilarejo do Capão, ponto de início de nossa trilha. 

A Chapada é repleta de trilhas. Mas, a mais famosa e que você realmente pode viver aquele lugar como um todo, é a trilha do Vale do Pati. Ela se dá em uma região isolada do mundo, em que o acesso só é possível a pé ou em animais. Lá, existem cerca de 10 casas onde você pode se hospedar. Já se prepare para tomar deliciosos banhos gelados em rios ou chuveiros, pois a única fonte de energia são os painéis solares usados para recarregar os celulares e rádios. 

Dia 2 – Vale do Capão até a casa da Dona Raquel

 Nosso plano para o primeiro dia de trilha era partir do Vale do Capão e seguir até a casa da Dona Raquel, totalizando 30 km de caminhada. Aqui você pode pegar um atalho, no Vilarejo do Capão tem motoboys que te levam até o verdadeiro início da trilha que fica a 6 km do ponto onde descemos da van. Mas, você já pode imaginar que fomos andando para economizar dinheiro (R$ 60,00 por pessoa).

O Vilarejo do Capão é uma série de chácaras no meio da mata. Ouvimos dos moradores locais, que é um refúgio hippie e em certas épocas do ano fica lotado de brasileiros de todas as regiões e até mesmo estrangeiros.

O início real da trilha se dá ao cruzar um rio ao final do vilarejo e adentrar na mata. Eu nadei nos 3 meses que antecederam a minha viagem, para treinar, acreditei que estava mais que preparado. Mas, logo nos primeiros metros da trilha, eu pensei que não iria aguentar. Era uma subida interminável e eu carregava 1 mochila de 45 l, cheia de coisas inúteis como livro, 2 blusas …. Erros de primeira viagem. Foi então que o Marcos fez toda a diferença, ele é um atleta nato. Com o fôlego 100%, ele se dispôs a carregar algumas coisas da minha mochila e seguimos caminhando. Esta parte foi como um show abrindo as cortinas, conforme a gente subia, a mata se abria e ao chegar ao topo, nas planícies centrais da Chapada, pudemos ter uma vista panorâmica daquela maravilha! Para trás e abaixo de nós o Vale do Capão, dos nossos lados, paredões de mais de 200 m formando o vale e à frente, uma planície infinita, chamada de Gerais do Vieira.

Agora, tirando o sol escaldante da Bahia, o caminho era fácil. Foram vários quilômetros caminhando em planícies, sem encontrar uma única alma viva. Tínhamos a Chapada só para nós. A trilha era bem demarcada e tínhamos o GPS para indicar o caminho, desafios que encontraríamos pela frente e pontos de água. Sim, pontos de água, toda a água no interior do Vale do Pati é potável, levamos apenas 1 garrafa de 2 l para cada um e foi mais que o suficiente, exceto no primeiro dia.

O primeiro perrengue que passamos foi na famosa ladeira do Quebra Bunda. Acho que ela leva este nome, pois se você cair de bunda naquelas pedras … vou te falar meu amigo. Antes de iniciarmos a subida, o GPS apontou que havia um ponto de água antes e outro depois da subida. Para nos poupar do peso adicional durante o ganho de altitude, optamos por encher as garrafas no topo. Mas, infelizmente o pequeno riacho estava cheio de girinos. Os estoques de água estavam em 1/4 e agora seriam mais de 12 km sem nenhuma fonte hídrica. Descer a ladeira não era uma opção e nem correr o risco de beber água de girinos e passar mal naquele lugar isolado. Então, seguimos em frente.

Estes foram os 12 km de trilha, mais difíceis da minha vida. Para quem já fez trilha, ainda mais em campo aberto sob o sol, sabe como a gente bebe muita água, a ponto de em menos de 1h consumir 2 l de água. E se você já fez as contas, considerando a velocidade média do homem como 5 km/h e 12 km de trilha, a gente levaria pelo menos 2h30 para fazer o percurso com apenas 1 l de água. Então, iríamos passar muita sede.

Dito e feito, me lembro exatamente, após 8 km de caminhada, nós estávamos acabados, com a garganta seca, correndo contra o tempo para chegar antes do anoitecer em nosso destino e querendo parar para descansar para tomar um bom gole d’água. Mas não tínhamos esta opção e o único jeito era continuar caminhando. 1 km depois chegamos no outro cartão postal da Chapada Diamantina, o Mirante do Pati, mas ignoramos ele completamente. Pois lá, sentado na sombra das árvores estava o nosso salvador, com seus jegues, vendendo água de coco. 

Vale do Pati - Mirante do Pati

Ficamos tão felizes, não importaria o preço que ele falasse, nós compraríamos o coco dele. Eu nem gosto de água de coco, mas se fosse para pagar R$ 100,00 no litro, eu pagaria sem medo de ser feliz. Ficamos ali sentados, descansando, tomando água de coco e conversando com ele. Conversa vai conversa vem, contamos nossos planos de ir até a Dona Raquel e ele prontamente disse que nós não chegaríamos lá antes do anoitecer.

Ficamos preocupados, pois eu já havia conversado com a Lia e feito a nossa reserva.  Mas, como estávamos acabados, sem lanternas, não teria jeito. Então, seguimos para a Igrejinha, que é o ponto de parada recomendado para quem sai do Capão, junto com um dos guias que estava de passagem. Ponto importante aqui, muitos guias e agências vão dizer que a reserva só é possível através dos guias, mas é mentira, muitos dos moradores do Vale têm WhatsApp e é possível conversar diretamente com eles. 

Chegando na Igrejinha, fomos direto conversar com os proprietários para fazer uma reserva de cama e refeições. Para nossa sorte, eles tinham cama, que era o mais importante, mas não era mais possível reservar as refeições. Como a Igrejinha é o principal ponto de parada para quem entra no Pati, ela tem uma estrutura melhor, com mercado, cozinha e mais camas. 

Então, fizemos nossa compra de 4 miojos no mercadinho e ficamos surpresos com o valor de R$ 24,00 e acredito que você também tenha ficado. Mas, isto é porque, tudo que entra no Pati é em mochilas ou jegues, então o custo do frete é elevado. Jantamos, tomamos um bom banho gelado para relaxar os músculos e capotamos na cama. 

Dia 2 – Cachoeirão 

Não preciso nem comentar que no dia seguinte, após mais de 25 km do dia anterior, acordamos com uma super dor nas pernas. Na verdade só eu, porque o Marcos estava 100%, me tirando da cama para sairmos para a trilha. E eu estava lá para isso, deixei a dor de lado, levantei, comemos 2 bananas e saímos em direção ao segundo cartão postal, o grande Cachoeirão. 

Este dia foi bem mais tranquilo, apesar dos 23 km a serem percorridos, nós iríamos sem mochila (deixamos na Igrejinha) e não teríamos que subir grandes ladeiras como o Quebra Bunda. A trilha em geral é plana e com vários pontos de água, dentre eles um laguinho onde tomamos um bom banho gelado para refrescar naquele sol. Uma dica para os futuros trilheiros, em regiões quentes como a Bahia, sempre que encontrar água, molhe sua camisa, vai ficar muito mais confortável para caminhar. 

Rio Vermelho - Vale do Pati

A agua na Chapada é vermelha devido a grande concentração de ferro.

Ao final da trilha chegamos ao famoso Cachoeirão, um paredão com mais de 200 m de altitude que segundo a lenda dos guias, em dias de chuva é possível ver mais de 19 cachoeiras no meio daquelas paredes. Mas, tudo que vimos foi um pequeno fio d’água, mas não ache que nós nos decepcionamos. A vista daquele lugar, com ou sem água, faz valer a pena todo o esforço e suor.

Cachoeirão - Vale do Pati

Após tirar várias fotos e apreciar aquele horizonte era hora de voltar, pegar nossas mochilas na Igrejinha e seguir para a Dona Raquel. Ao lado da Igrejinha tem uma cachoeira famosa, chamada Cachoeira dos Funis, paramos ali para um banho rápido, pois já eram 17h e estávamos com medo de escurecer. 

Conforme caminhávamos esse medo foi se tornando mais real, ainda mais porque nos perdemos da trilha do GPS e andamos cerca de 15 minutos em vão, até perceber que estávamos fora da trilha. Agora com as mochilas nas costas, cada passo para subir aqueles morros era uma dor intensa, mas sem tempo para parar, a única opção era seguir em frente. 

Por sorte, chegamos na propriedade ainda com os últimos raios de sol no céu. Ao pisar na casa, logo fui procurar a Lia, para pedir mil desculpas por furar a reserva. E ela muito gentil, me desculpou e perguntou se eu queria comer ou beber algo. Enquanto conversávamos, uma senhora me chamou, com muita calma me deu as boas vindas e se apresentou como Dona Raquel. Com esta paz e bondade, eu me senti em casa e soube que teria uma boa noite de sono e ótimas refeições. 

Quarto casa Dona Raquel - Vale do Pati

Após alguns minutos de conversa, fui guardar minhas coisas, tomar um banho e me preparar para “O Jantar”. Que comida maravilhosa, muita mandioca, frutas, tapioca … nem me lembrava mais que na noite anterior havia jantado miojo. Em nossa mesa, sentaram-se 2 franceses, o pai Christian e a filha Nina, de quem ficamos muito amigos e ao final da refeição, nos convidaram a ir para a Pousada Ilha Verde, em Itacaré-BA.

Esta foi a noite em que nosso roteiro mudou completamente. Eu estava com uma dor insuportável na perna, provavelmente não aguentaria mais um dia de caminhada. O Marcos estava com a alça da mochila quase arrebentando. E agora tínhamos um convite, para sair do Vale do Pati no dia seguinte, junto com os franceses e ir curtir uma praia no litoral baiano. 

Dia 3 – Guiné e Andaraí

Acho que vocês sabem a resposta, claro que escolhemos ir para o litoral. Então, no dia seguinte, colocamos as coisas na mala, tomamos o “O Café da Manhã” e partimos em um longa caminhada para Guiné. Esta foi a caminhada mais intensa. Pois, além de estarmos destruídos dos outros dias, o caminho era cheio de sobe e desce, incluindo a grande Ladeira do Pati. A principal motivação era o  carro esperando por nós ao final da trilha e finalmente poderíamos descansar.

Rampa do Pati - Vale do Pati

No topo da Ladeira do Pati, fica o Mirante do Pati e desta vez hidratados, paramos para apreciar a vista e tirar ótimas fotos. Logo ao iniciar a caminhada, comecei a sentir uma dor no pé direito. Quando tirei o tênis para ver o que estava acontecendo, entre os meus dedos estavam se formando bolhas. Por sorte, a Nina tinha Band-Aid e conseguiu aliviar o problema. Se você está planejando fazer uma longa caminhada, preste muita atenção no calçado e se possível, vista 2 meias para evitar o atrito entre os dedos. 

Mirante do Pati - Vale do Pati

Ao final da trilha, encontramos o carro e fomos para o vilarejo de Andaraí. Onde ficamos 2 noites e fizemos alguns passeios em cachoeiras e um mini pantanal que eram acessíveis por carro. Já estávamos no limite de nossas aventuras e era hora de seguir para Itacaré. 

Para este post não ficar muito extenso, vou contar como foi Itacaré em outro post, mas infelizmente eu não tirei fotos daquela cidade tão charmosa e com praias tão bonitas. Se você quiser saber qualquer coisa sobre a Chapada Diamantina, pode entrar em contato comigo que irei te ajudar ao máximo a planejar a sua viagem. Especialmente para o Vale do Pati. 

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